COP-30 e o desafio do Metano
Como a engenharia de resíduos se tornou peça-chave na descarbonização do Brasil
A Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-30), que será realizada em Belém, marca um novo ponto de inflexão na agenda climática global.
Entre os diversos gases de efeito estufa em discussão, o metano (CH₄) assume protagonismo. Ele tem 28 vezes mais potencial de aquecimento global que o CO₂, e responde por quase um terço do aumento da temperatura média do planeta desde a Revolução Industrial.
No Brasil, o setor de resíduos sólidos urbanos (RSU) representa uma das fontes mais expressivas — e, paradoxalmente, mais acessíveis de mitigar — as emissões de metano.
É nesse ponto que a engenharia de resíduos deixa de ser apenas um tema ambiental e passa a integrar o núcleo da estratégia de descarbonização nacional.
O setor de resíduos e o impacto do metano
De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o setor de resíduos responde por aproximadamente 16% das emissões de metano do país, o equivalente a 2 milhões de toneladas de CH₄ em 2020.
Mesmo com o encerramento progressivo dos lixões, as emissões aumentaram 52% entre 2005 e 2020 — reflexo direto do crescimento urbano e da dependência do aterramento como principal destino dos resíduos.
O Global Methane Pledge, acordo global assinado por mais de 150 países, estabelece a meta de reduzir em 30% as emissões de metano até 2030.
Para que o Brasil cumpra esse compromisso, será indispensável integrar tratamento orgânico, biodigestão e recuperação energética (WtE) como parte da política nacional de clima e resíduos.
Três camadas de mitigação: compostagem, biodigestão e WtE
A mitigação do metano não se apoia em uma única tecnologia, mas em sistemas integrados de tratamento que atuam em diferentes estágios do ciclo dos resíduos.
1️⃣ Compostagem
Processo aeróbio que interrompe a decomposição anaeróbia e, portanto, elimina emissões de metano na origem.
Além de gerar composto orgânico estabilizado para uso agrícola, reduz a carga orgânica enviada aos aterros e melhora o desempenho da coleta seletiva.
2️⃣ Biodigestão
Quando realizada com resíduos orgânicos limpos e segregados na origem, permite capturar e valorizar o metano em forma de biogás e biometano, além de produzir biofertilizante.
É a etapa que transforma o carbono biogênico em energia renovável controlada.
3️⃣ Recuperação Energética (WtE)
O tratamento térmico dos rejeitos não recicláveis complementa as rotas biológicas, impedindo emissões residuais de CH₄ e gerando eletricidade e calor.
Segundo dados da ABREN, cada tonelada de RSU processada em usina WtE evita, em média, 1 tonelada de CO₂ equivalente em emissões potenciais.
Essas três rotas não competem entre si — se articulam.
Quando planejadas em conjunto, criam um sistema de mitigação em camadas, capaz de reduzir emissões, gerar energia e otimizar a economia circular.
Planejamento técnico: a condição da eficiência
Nenhuma dessas rotas alcança eficiência plena sem planejamento técnico e segregação adequada.
A compostagem e a biodigestão, por exemplo, exigem pureza do insumo orgânico — algo que só é possível com coleta seletiva eficaz e educação ambiental de base.
O histórico europeu mostra isso com clareza:
- 47% das plantas de tratamento mecânico-biológico (TMB) na Europa são de compostagem,
- apenas 13% operam com biodigestão, justamente pela dificuldade de obtenção de orgânico limpo.
(ECOPROG, Mechanical Biological Treatment in Europe, 2023)
O caso espanhol entre 2004 e 2012 é emblemático: a implantação de TMBs sem segregação adequada aumentou o aterramento e reduziu a taxa de reciclagem.
A lição é inequívoca — a eficiência climática começa na base do fluxo, não na ponta da tecnologia.
O elo com a COP-30 e a política climática brasileira
A COP-30, ao trazer a pauta do metano ao centro do debate, cria uma oportunidade histórica para o Brasil.
O país possui abundância de biomassa, escala continental de geração de RSU e base tecnológica consolidada para implantar soluções de compostagem, biodigestão e WtE.
O que falta não é tecnologia, mas integração institucional e planejamento regionalizado.
As diretrizes do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PLANARES) e o Diálogo Brasil–União Europeia sobre Redução de Metano (GIZ, 2024) já indicam o caminho:
→ regionalização das soluções,
→ incentivo à biodigestão e ao aproveitamento energético,
→ estímulo à cooperação público-privada.
Ao incorporar essas frentes, o Brasil não apenas cumpre metas de mitigação, mas estrutura uma infraestrutura climática de longo prazo, transformando resíduos em energia e emissões em oportunidades.
Conclusão
A descarbonização do setor de resíduos é um desafio técnico, não retórico.
Cada tonelada de metano evitada é resultado de projeto, modelagem e engenharia.
A WTEEC enxerga nesse processo um eixo estruturante da transição energética brasileira: integrar compostagem, biodigestão e WtE em sistemas regionalizados, financeiramente viáveis e ambientalmente mensuráveis.
A COP-30 reforça o que a engenharia já demonstrou na prática:
não há política de climática eficaz sem gestão integrada de resíduos.
Reduzir metano é fazer política pública com base nas tecnologias já validadas em países desenvolvidos.



