A hierarquia de gestão de resíduos sólidos é a base para reduzir aterros, ampliar reciclagem e consolidar a recuperação energética no Brasil.
Introdução
A gestão sustentável dos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) exige mais do que ações pontuais. Para atender às metas climáticas e fortalecer a economia circular, o Brasil precisa alinhar-se a modelos comprovados internacionalmente. A hierarquia de gestão de resíduos — que prioriza reciclagem, recuperação e, por último, disposição em aterros — é o caminho para reduzir impactos ambientais, gerar energia limpa e valorizar recursos.
O que é a hierarquia de gestão de RSU
A hierarquia de gestão de resíduos estabelece uma ordem de prioridade:
- Reciclagem do que é tecnicamente possível.
- Recuperação energética do que não pode ser reciclado, com tratamento térmico eficiente (padrão R1 europeu).
- Disposição final em aterros sanitários, apenas para rejeitos inertes (cinzas e escórias).
Esse modelo já é consolidado na União Europeia e deve ser inspiração para o Brasil, em consonância com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que exige tratamento prévio antes do aterramento.
A importância da coleta seletiva
Nenhum sistema de gestão eficiente se sustenta sem coleta seletiva.
- Recicláveis: precisam ser coletados limpos, enviados para triagem em cooperativas ou unidades mecânicas.
- Orgânicos: requerem coleta dedicada para permitir compostagem ou biodigestão de qualidade.
- Frações residuais: devem ser direcionadas ao tratamento térmico (Waste-to-Energy).
Ao separar na origem, o sistema como um todo se simplifica e se torna mais eficiente, garantindo dignidade para trabalhadores e resultados ambientais consistentes.
Recuperação energética como etapa estratégica
A recuperação energética (Waste-to-Energy – WtE) é a solução comprovada para a fração residual dos resíduos. Ao passar por incineração de alta eficiência:
- Apenas 10 a 15% do volume inicial permanece como escória.
- Metais podem ser recuperados com valor de mercado.
- As escórias podem ser reutilizadas em pavimentação e construção civil.
- O rejeito final cai para cerca de 4% do total processado.
Isso reduz drasticamente a pressão sobre aterros e cria valor econômico a partir do que antes era descartado.
Lições da experiência europeia
- Holanda e Alemanha: recuperam até 70% das escórias para uso econômico.
- França e Dinamarca: usinas WtE instaladas dentro de áreas urbanas, integradas ao tecido social e urbano.
- Espanha e Portugal: investimentos equivocados em tratamento mecânico-biológico (TMB) aumentaram o aterro em vez de reduzi-lo.
O recado é claro: apostar em tecnologias comprovadas e em sistemas integrados é mais eficiente do que investir em soluções de baixo desempenho.
Oportunidade para o Brasil
O Brasil precisa avançar na direção da Europa e adotar uma visão integrada:
- Expandir a coleta seletiva em todos os municípios.
- Garantir tratamento térmico eficiente para a fração residual.
- Valorizar as escórias e reduzir a destinação final para menos de 5% do volume total.
- Cumprir e ampliar as diretrizes da PNRS e das metas do PLANARES.
Essa transição permitirá reduzir lixões, gerar energia firme e renovável, criar empregos de qualidade e atrair investimentos privados para a infraestrutura ambiental.
Conclusão
A hierarquia de gestão de RSU não é apenas uma prioridade técnica; é uma decisão estratégica para a economia brasileira. Países que avançaram nesse modelo reduziram aterros, aumentaram a reciclagem e consolidaram a recuperação energética como vetor de sustentabilidade.
Ao adotar esse caminho, o Brasil pode transformar seu passivo em oportunidade — promovendo segurança energética, inclusão social e mitigação climática.



